CRÓNICAS DE RAMADAN

CRÓNICAS DE RAMADAN

(dedicado, em especial, aos meus familiares mais novos e a todos os crentes)

Todos os louvores são para Allah Subhana Wataala, que instituiu para os muçulmanos o cumprimento do Jejum neste mês sagrado de Ramadan. Pedimos a Allah para que derrame as bênçãos para o nosso Profeta Muhammad (Sallalahu Aleihi Wassalam), um exemplo para a conduta da humanidade.

Quando eu era pequeno, muito pequeno, achava engraçado ver os adultos acordarem de madrugada para fazerem o sheri (Suhur). “Anas Ibn Malik (Radiyalahu-an-hu), referiu que o Profeta Muhammad (Salalahu Aleihi Wassalam) disse: Lançai mão do Sheri (ou seja do Suhur), porque há bênção nesse acto”. – Bukhari e Muslim. Acordava com o cheiro aromático do arroz do Limpopo (qual cheiro do  basmati!). Aproveitava comer umas colheradas de arroz e das iguarias que restavam do iftar anterior. Para mim era uma alegria. O meu pai dizia-me que quem acorda à noite para comer, deve fazer o jejum. A meio da manhã, a minha mãe, servia-me o almoço e dizia que era o iftar dos mais pequenos. Algumas vezes, a minha mãe fazia-me companhia, partilhando a refeição do almoço, num aposento fechado, para que nenhum vizinho visse ela a comer, àquela hora. Depois de acabar o mês de Ramadan, ela jejuava mais dias do que o meu pai. Só mais tarde é que percebi os motivos:  “A mulher não jejua nos dias de menstruação. Mas deverá recuperar esses mesmos dias”.

 Havia duas Mesquitas principais na cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo: a da baixa e a do Anuaril Isslam no Xipamanine. Nos dias de hoje, segundo me consta, ao virar a cada esquina, “tropeçamos” numa mesquita, Masha Allah. Passei toda a minha juventude na Mafalala, nos subúrbios da cidade. Mais crescido, ia com o meu pai ao Anuaril Isslam, para fazer o Tarawi. Íamos a pé, na escuridão da noite, percorrendo vários quilómetros, entre os labirintos das palhotas e das casas de madeira e zinco. Muitas vezes cruzávamos com os trabalhadores nocturnos que eram encarregados de recolher os detritos humanos. Pertenciam a uma etnia própria de Moçambique, que só se dedicava a este tipo de serviço e à recolha de lixo em geral. Com “respeito” e com algum receio, deixávamos eles passarem, sem pronunciarmos qualquer palavra. Aconteceu uma vez que uma pessoa do bairro, ao cruzar-se com eles, disse que cheirava mal e eles não se fizeram de rogados: deitaram para cima dele, o conteúdo do balde! “Ó fiéis, que nenhum povo zombe do outro; é possível que (os escarnecidos) sejam melhores do que eles (os escarnecedores)…”-Surat Hujjurat 49.11.

 Há 50 anos atrás, infelizmente, existia pouca literatura islâmica traduzida. Era portanto muito habitual, quem estava interessado em obter esclarecimentos religiosos, assistir às diversas  intervenções feitas pelos maulanas. Aos fins-de-semana nos meses de Ramadan gostava de ir assistir às conversas informais efectuadas pelo falecido Maulana Cassimo (Que Allah Subhana Wataala  o recompense com o Janat, pelo trabalho  desenvolvido). Ficávamos debaixo duma árvore frondosa em frente à entrada da Mesquita, para ouvir atentamente as diversas passagens religiosas. Uma que nunca mais me esqueço e relacionada com a nossa higiene pessoal foi mais ou menos assim referida: “Um homem com vontade de urinar, aproximou-se a uma árvore. Encostou o braço direito na árvore e começou a aliviar-se  da urina, esquecendo que a mesma estava a atingir uma parede dura e a fazer ricochete. Resultado, o homem ficou com as calças cheias de pingos de urina. Abanou o reservatório e depois fechou as calças. Esse homem estaria limpo? Estaria em condições para efectuar as suas orações? Nem istinja fez! (operação de limpar o resto da urina). Bem, isto falado em língua local, teve um impacto e todos nós começamos a rir. Mas ficou a lição!

“Consta num hadice de que o Profeta Muhammad (Sallalahu Aleihi Wassalam) estava a passar com os seus companheiros perto de duas sepulturas e foi-lhe revelado que os ocupantes dessas duas campas estavam a ser castigados, um porque andava sempre a intrigar e a caluniar e o outro porque não  se cuidava da urina. -Relato de Musslim”; “O Profeta Muhammad, Sallalahu Aleihi Wassalam referiu: A oração sem a pureza não é aceite, nem a caridade dada da riqueza suja i.é, adquirida ilicitamente. –  Relato de Muslim.”;  E Allah Subhana Wataala diz no Cu’ane: “Ó tu que estás coberto com um manto! Levanta-te e adverte. Enaltece o teu Senhor. Purifica as tuas vestes e abandona a abominação”. – Cap.74- Vers.1 a 4.

Antes do Iftar, enviávamos pratos especiais de comida para a família e para os vizinhos. Eles retribuíam devolvendo os pratos com outras iguarias. Era uma familiaridade e uma amizade muito especial, o que já não acontece nos dias de hoje. As pessoas eram mais solidárias, e as palavras de apoio fluíam nos momentos de tristeza. Infelizmente, nos tempos actuais, tudo mudou.

Na altura, eram poucas as pessoas que tinham telefone em casa. Mesmo assim, com muito sacrifício, tentávamos começar os jejuns  e festejar os Ides simultaneamente  no mesmo dia,  em todo o país. As pessoas quebravam o jejum por saberem no próprio dia de que se estava a comemorar o Ide. Hoje, há famílias que ficam divididas, comemorando os Ides em dias diferentes. Mais um motivo para a separação entre famílias.

Façam o favor de manterem e fortalecerem os vossos laços familiares e de aproveitarem os dias de Ramadan para obterem benefícios espirituais. O Ramadan vai e volta. Mas nós não sabemos se voltaremos a fazer parte do ciclo.

Abdul Rehman Mangá

 

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