024.01 – OS DIREITOS DOS VIZINHOS

024.01 – OS DIREITOS DOS VIZINHOS

Adorai a Allah e não Lhe atribuais parceiros. Tratai com benevolência os vossos pais e parentes, os órfãos e os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro de lado, o viajante e os vossos servos”. Cur’ane 4:36.

Uma família honesta e responsável, é a base fundamental duma sociedade estável e solidária. Para facilidade de entre ajuda e do abastecimento de todos os bens e serviços que necessitam para sobreviverem, as famílias acabam por viver umas ao lado das outras, constituindo os bairros, as vilas e as cidades. Ninguém vive só, todos necessitamos uns dos outros. Temos os nossos vizinhos, com quem dialogámos e nos cruzámos todos os dias. Quando algum problema grave nos bate à porta, muitas vezes é o nosso vizinho que nos acode. Mesmos os mais abastados, não conseguiriam viver isolados do resto do mundo. O mesmo também se aplica em termos religiosos.

Cada vez mais, o mundo é mais global e passamos a conhecer outras formas de estar na vida. Como ninguém pode insultar a mãe do outro, também não se deve ofender a religião do outro. O Profeta Muhammad, que a Paz de Allah e as Bênçãos de Allah estejam com ele, referiu: “Um dos pecados mais grave, é quando um homem insulta os seus próprios pais. Alguém perguntou: “ Acaso iria alguém insultar os seus próprios pais?” Respondeu: “ Sim, é quando um homem maldiz ao pai de alguém e este replica com o mesmo; é quando um homem maldiz a mãe de alguém e este replica com o mesmo.” Seguindo os ensinamentos do Isslam, podemos viver em paz com os nossos vizinhos, independentemente da cor, etnia e religião. O Isslam visa não só a criação duma sociedade, onde sejam implementadas as Leis Divinas, mas também recomenda valores que garantam a coesão da sociedade, onde cada um se sinta importante. Cada membro tem a sua parte na responsabilidade e em troca, acaba por ter a protecção dessa mesma comunidade. As brigas entre os vizinhos são prejudiciais, levando muitos a procurarem a paz noutros locais. Por isso, o Isslam recomenda normas e condutas para uma boa vizinhança.

O comportamento dos nossos filhos, pode originar discussões com os vizinhos. As crianças conseguem fazer amizades com muita facilidade, mas também zangam-se por tudo e por nada. As brincadeiras e as alegrias proporcionadas por um jogo de futebol entre os mais novos, podem terminar em pequenas zaragatas, envolvendo os respectivos progenitores. Algumas mães, para cobrirem o mau comportamento dos seus filhos, acabam por tomar partido deles, muitas vezes sem se preocuparem em saber quem são os culpados ou de se certificarem dos motivos que deram origem às animosidades. Das discussões, passam a insultos verbais e muitas vezes com agressões físicas. As discussões estender-se-ão aos pais. Os vizinhos que se davam bem, deixam de se falar por longos períodos ou definitivamente.

“…Não vos repudieis mutuamente, nem voltei as costas uns aos outros…. Não é lícito a nenhum muçulmano repudiar seu irmão por mais de três dias”. Bukhari e Muslim.

Com os que nos rodeiam, falamos e damos a nossa opinião acerca de diversos assuntos. Tudo que falarmos, jamais terá regresso. Não é possível recuar no tempo, para voltarmos atrás do que dissemos. As relações familiares, de vizinhança e de amizade podem ser cortadas por palavras inconvenientes. O nosso relacionamento com os nossos familiares, com os vizinhos e com todos, em geral, será também determinante para nos ser concedida a nossa morada definitiva (paraíso ou inferno).

Um dos piores actos sociais é a crueldade perante os vizinhos. À partida, podemos considerar que, quem cumpre com orações obrigatórias e passa a maior parte da noite efectuando orações facultativas, é um crente destinado ao paraíso. Abu Huraira (Radiyalahu an-hu) referiu que o Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam) foi perguntado: “Uma certa mulher pratica as orações prescritas e as facultativas toda a noite, jejua, actua de acordo, distribui Zakate, no entanto a sua língua, incomoda e magoa os seus vizinhos”. O Mensageiro de Allah disse: “Não há nada de bom nela. Ela é uma das pessoas do fogo do inferno”. E eles disseram: “Outra mulher pratica (só) as orações prescritas, oferece pedaços de coalhada como sadaqqa e não incomoda ninguém” O Profeta disse: “Ela é uma das pessoas do Paraíso”. Bukhari, Al-Adab al-Mufrad.

“Rabaná ghfirli waliwa lidaiá wa lilmu-minina yau ma yakumul hisab”. “Ó Senhor nosso, no Dia da Prestação de Contas, perdoa-me a mim, aos meus pais e aos crentes”. 14:41.

Ibn Umar e Aisha (Radiyalahu an-hum) referiram que o Profeta Muhammad (Salalahu Aleihi Wassalam) disse: “O Arcanjo Gabriel – Jibrail (Aleihi Salam), insistiu tanto acerca do bom trato para com o vizinho, que cheguei a pensar que o incluiria como um dos herdeiros”. Bukhari e Muslim.

Nos tempos dos nossos antepassados, as casas tinham paredes comuns. Uma única parede separava as casas, na maior parte das vezes, era uma placa fina de madeira. Contrariamente aos nossos tempos, duas casas, que estejam “coladas” uma à outra, cada uma possui a sua própria parede e cada um dos vizinhos pode utilizar a sua parede como bem entender, perfurando-a ou modificando-a. Nos tempos antigos, era habitual alguma fricção entre vizinhos quando um deles utilizava a parede, por exemplo, para pregar algum prego. Para harmonizar a relação dos vizinhos, Abu Huraira (Radiyalahu an-hu) referiu que o Muhammad (Salalahu Aleihi Wassalam) disse “Ninguém deve proibir o seu vizinho de fixar uma cavilha de madeira na “sua” parede”. Bukhari 43:643. Este pequeno hadice, confirma de que o Islão é um autêntico código de vida. Encontramos na Revelação Divina e nos ditos do Profeta, todos os ensinamentos para vivermos em paz e em harmonia.

O vizinho que deve merecer a nossa melhor atenção, é o que está mais próximo da nossa casa, independentemente da sua filiação religiosa ou da condição financeira. Nos momentos de aflição é ele que nos poderá socorrer, antes de chegarem os nossos familiares. Aisha (Radiyalahu an-há) perguntou ao Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam): “Ó Mensageiro de Deus, tenho duas vizinhas, a qual delas deveria eu fazer uma oferta? Respondeu: “Àquela cuja porta está mais próxima à tua.” Bukhari.

Aquele que é pobre, não deve pensar que um presente modesto não é digno para o seu vizinho. Devemos presentear os nossos familiares, amigos e familiares, de acordo com as nossas posses. Abu Huraira (Radiyalahu an-hu) referiu que Muhammad (Salalahu Aleihi Wassalam) disse: “Ó Muçulmanas não pensem que qualquer presente é insignificante para ser oferecido às vossas vizinhas, mesmo que seja só um pé duma ovelha.” Bukhari e Muslim. “Quem tiver feito o bem, quer seja do peso de um átomo, vê-lo-á”. Cur’ane 99.7. Conta a nossa sinceridade perante o vizinho e a humildade perante Allah. Por outro lado, um rico não deve dar ao seu vizinho pobre uma lembrança obsoleta, porque pode ser considerado um desprezo pelo próximo e ficará privado das bênçãos de Deus.

Abdullah b. Amr b. al-As (Radiyalahu an-hum) referiu que o Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam) disse: “O melhor dos companheiros aos olhos de Allah o Exaltado, é o que é melhor para o seu companheiro e o melhor vizinho aos olhos de Deus, é o que é melhor para o seu vizinho”.  Bukhari, Al-Adab al-Mufrad. Uma pessoa que é gentil, para agradar a Allah, acabará por criar um bom relacionamento com todos os que o rodeiam, acabando por ser recompensado aqui e na próxima vida. Um mau vizinho provoca descontentamentos e é a pior pessoa que os outros podem suportar nesta vida. O Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam) costumava dizer na sua súplica: “Senhor Meu, eu busco refúgio em Ti de um mau vizinho no meu local de residência permanente, porque um vizinho no deserto pode ser mudado de um lado para outro”. E disse também: “Entre as coisas que contribuem para a felicidade de um muçulmano, é uma espaçosa habitação, um bom vizinho e um meio confortável de transporte”. In Bukhari, Al-Adab al-Mufrad.

Mujahid referiu: “Eu estava com Abdullah b. Amr quando seu empregado estava a esfolar um carneiro. Ele lhe disse: “Rapaz, quando acabares, começa com o nosso vizinho Judeu” Um homem que lá se encontrava, surpreso disse: “Judeu?! possa Allah te corrigir”. Abdullah b. Amr respondeu: “Eu ouvi o Profeta (Salalahu Salalahu Aleihi Wassalam) recomendando que devíamos tratar melhor os nossos vizinhos, ao ponto de nós acreditarmos ou pensarmos, de que eles poderiam ser incluídos como nossos herdeiros”. Bukhari, Al-Adab al-Mufrad.

Por várias ocasiões, o Anjo Jibrail (Aleihi Salam) transmitiu a Muhammad (Salalahu Aleihi Wassalam) a importância do bom relacionamento entre vizinhos. O Profeta sabendo que, os anjos não desobedecem a Deus, que as mensagens vinham directamente do Criador e porque estava consciente da importância do bom relacionamento entre os vizinhos, também transmitiu insistentemente esta preocupação aos seus companheiros, como se pode comprovar através do seguinte hadice: Abu Huraira (Radiyalahu an-hu) referiu que o Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam) disse: “Por Deus, nunca chegará a ser um verdadeiro crente” repetindo a frase por três vezes. Foi-lhe perguntado: “Ó Mensageiro de Allah, quem é esse?” Respondeu: “É aquele que cujo vizinho não se encontra a salvo das suas más acções. Bukhari e Muslim. Ao tratarmos gentilmente os nossos vizinho, estamos apenas concedendo-lhes os seus direitos. Abu Umammah ouviu o Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam), na Peregrinação da Despedida (poucos anos antes dele morrer), quando estava sentado na sua camela, a referir novamente o bom trato que deve ser concedido aos vizinhos. Umammah receou que seria dessa vez que os vizinhos seriam incluídos nos direitos da herança! Tabarani.

“Rabaná ghfirli waliwa lidaiá wa lilmu-minina yau ma yakumul hisab”. “Ó Senhor nosso, no Dia da Prestação de Contas, perdoa-me a mim, aos meus pais e aos crentes”. 14:41.

Da sabedoria popular Brasileira, retive as seguintes palavras: “chegaram visitas, vamos acrescentar água ao feijão!”. As visitas não anunciadas, acabam por nos surpreender, muitas vezes às horas das refeições. As donas da casa encontram sempre soluções rápidas, de modo a complementarem a refeição já preparada. É um sentimento de partilha para com as visitas. Esta preocupação também deve ser estendida aos nossos vizinhos, porque para além dos direitos dos vizinhos, estaremos a implementar uma boa relação de proximidade com eles. O Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam) disse a Abu Dharr (Radiyalahu an-hu): “Quando preparares algum caldo (sopa, caril), lembre-se dos membros da família do seu vizinho, adicione água e ofereça uma parte como presente, com cortesia”. Musslim 32:6358. Depois dos direitos dos familiares, o Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam) deu uma grande ênfase aos direitos dos vizinhos, realçando a obrigatoriedade de se auxiliar os que se encontram doentes ou sem condições económicas de subsistência.

O Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam) e os membros da sua família também passaram fome. Uma passagem é contada por Aisha (Radiyalahu an-ha), a mãe dos crentes, de que certa vez, na casa do Profeta, passaram 3 luas cheias sem que o fogão fosse aceso. Para enganar a fome, recorriam à água e a tâmaras. Seus vizinhos Ansars, ofereciam algum leite ao Profeta, que dava de beber à família. Bukhari 47:741.

O desprezo aos que nos estão mais próximos (familiares e vizinhos), será motivo para sermos responsabilizados perante Allah. O Profeta (Salalahu Aleihi Wassalamo) disse: “No dia da Prestação de Contas, algumas pessoas serão agarradas / retidas pelos seus vizinhos e dirão: “Senhor meu, esta pessoa fechou-me a porta e recusou-me a bondade humana”. E disse também: “O homem que encheu a sua barriga enquanto o seu vizinho se encontra com fome, não é um (bom) crente”.  In Bukhari, Al-Adab al-Mufrad. Em algumas festas de casamento (Waleema), os vizinhos pobres não são convidados, com o argumento de que poderão destoar o ambiente e os restantes convidados sentirem-se incomodados. “Abu Huraira (Radiyalaho an-hu), referiu que o Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam) disse: “A pior comida é a do banquete do casamento, no qual só os ricos são convidados e os pobres não são convidados”. Bukhari 66.106.

Nos tempos actuais, nas chamadas sociedades desenvolvidas, a imoralidade é uma constante  da vida das pessoas. Tudo é permitido em “defesa” duma sociedade que se considera avançada. Rejeitar a tentação duma mulher bela, é muito difícil, excepto para queles que temem a Deus. A companheira do adúltero pode ser uma mãe, uma irmã, uma tia e até uma avó! Aqueles que não têm convicções religiosas ou os que não as têm muito fortes, facilmente se entregarão ao pecado, sem sentimento de culpa.

Todos os Profetas consideraram o adultério, um pecado muito grave. Mas mais grave ainda se torna, quando o mesmo é praticado entre vizinhos, conforme a seguinte advertência. Al Miqdad b. al-Aswad  (Radiyalahu an-hu) referiu que o Profeta (Salalahu Aleihi Wassalam) perguntou aos seus companheiros acerca do adultério. E eles responderam de que é um pecado grave, Deus e o Seu Mensageiro o proibiram. Disse o Profeta: “É menos sério para um homem cometer adultério com 10 mulheres do que o adultério com a mulher do seu vizinho”. Foi-lhe perguntado acerca do roubo. Ele respondeu: “É menos sério para um homem roubar em 10 casas do que roubar da casa do seu vizinho”.  Bukhari, Al-Adab al-Mufrad.

A humanidade conquistou o espaço e utiliza as altas tecnologias. O bem-estar e a abundância de alimentos abrangem uma parte da humanidade. A outra parte do mundo, vive na miséria, na fome e na ignorância. Quantos necessitados, passando as amarguras da fome, não ficam incomodados com o simples cheiros dos cozinhados que vêm da casa do vizinho? O muçulmano sabe que tem obrigações para com a sua família e para os seus pais. Aprendeu que a melhor caridade é a praticada aos familiares mais necessitados. Quando pequeno, via a mãe  trocar pratos de comida com os seus vizinhos e a ser mais generosa com os mais necessitados. O Zakate e o Sadaka, não ajudariam a erradicar a fome e a nudez? Relacionar-se e auxiliar o vizinho não muçulmano não é uma forma de expandir a palavra de Paz e de Tolerância do Isslam? Não é o nosso bom comportamento, o melhor dawá (convite) para a religião de Deus?  Então porque se encontra a humanidade nesta situação tão deplorável? Que Allah com a Sua infinita Misericórdia, ilumine as mentes e os corações dos muçulmanos para que recuperem os ensinamentos do Seu Mensageiro (Salalahu Aleihi Wassalam) e cumpram com as suas obrigações.

Fica assim concluído este tema respeitante aos direitos dos vizinhos. Pela importância, podemos colocar este tema na seguinte ordem: (1) Obedecer a Deus e ao Seu mensageiro; (2) Obedecer aos pais; (3) Manter firme o relacionamento familiar; e (4) Conceder os direitos aos vizinhos. 

“Wa ma alaina il lal balá gul mubin”  “E não nos cabe mais do que transmitir claramente a mensagem”. Surat Yácin 3:17. “Wa Áhiro da wuahum anil hamdulillahi Rabil ãlamine”. E a conclusão das suas preces será: Louvado seja Allah, Senhor do Universo!”. 10.10.

Rabaná ghfirli waliwa lidaiá wa lilmu-minina yau ma yakumul hisab”. “Ó Senhor nosso, no Dia da Prestação de Contas, perdoa-me a mim, aos meus pais e aos crentes”. 14:41.

Abdul Rehman Mangá

 

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